“o questionamento, a indagação, a compreensão da pesquisa, eis o caminho da criação; [...] a única coisa que é possível fazer, dificílima, é ajudar os outros a formularem perguntas, suas próprias perguntas. Ao formularem as perguntas, estarão encaminhando-se para as possíveis respostas” (Ostrower, s.d.)
Durante o processo de escolha da temática que regeria o pré-projeto base para o meu trabalho de conclusão de curso (TCC) da Licenciatura Plena em Dança, deparei-me com esta frase que dizia de forma implícita, que este percurso para a escolha do tema não seria fácil. Descobri então, que teria que responder inúmeras respostas e transpor muitas barreiras internas- dúvidas, cansaço corporal - e externas- outras atividades acadêmicas- para chegar à escolha de um assunto que pudesse ser “inédito" ou, que pelo menos, possibilitasse sua dilatação para um futuro aprofundar em uma pós- graduação (especialização, mestrado ou doutorado).As perguntas, que sempre me rodearam no percurso da pesquisa exploratória, foram tendo respostas, através de horas de diálogo com meus colegas de graduação, professores e familiares. Além deles, foram de suma importância para este ensaio os professores Eliana Pereira (a qual tive o meu primeiro contato com o quebra- cabeça que será estudado) e Adilson Maia Negrão (professor de matemática) ambos residentes em Abaetetuba, que através de suas contribuições- material bibliográfico, relatos de experiências- me ajudaram a decidir pelo objeto que será apresentado adiante neste texto.
Portanto, para melhor expor e clarear as idéias subdividi este ensaio em cinco tópicos, que darão uma visão geral acerca do que pretendo abordar como pesquisa, sendo que os itens estão dispostos em: como se deu a escolha do objeto de pesquisa, o que é o objeto, como pretendo abordá-lo por meio da dança e quais os estudiosos que serviram de embasamento teórico para este trabalho (este dois últimos tratados em um mesmo tópico).
Caminho das pedras: a descoberta do objeto de pesquisa
Qualquer ser humano quando se depara com algo “novo” que lhe tire de seu estado de inércia, ou seja, que questione seu estado de acomodação; e por mais passivo que esta pessoa seja; alguma coisa fará para encontrar a solução para o que lhe incomoda. Na vida, encontramos diversos obstáculos que tentaram nos desviar de nossos objetivos ou até impedir que os ultrapassássemos - nosso comodismo. Porém, para chegar às flores precisamos passar pelas pedras, assim como, para colher o trigo bom, precisamos separá-lo do joio.
Começo este tópico com essa reflexão para dizer que este trabalho foi desviado diversas vezes de seu caminho e por inúmeras razões, dentre elas falta de materiais-bibliográficos- suficientes para pesquisar, pouca ou nenhuma afinidade com o objeto proposto, dentre outros.
Entre as idéias que surgiram, a primeira que me chamou a atenção foi à relação entre dança e teatro cujo tema e sub-tema denominei “Entre a fantasia e a realidade: o diálogo socioeducativo entre a dança e teatro na formação juvenil”, o qual foi inspirado em minha prática como arte- educador em Abaetetuba, especificamente, trabalhando na localidade Tucumanduba, sendo a qual, me fez suscitar outra proposta que seria a de analisar “a prática do apanhador de açaí como performance”.
Não obstante, prossegui em busca de uma idéia que desse um norte diferente ao meu trabalho; foi então, que me lembrei de um quebra-cabeça chinês que teria utilizado para ministrar uma oficina de quadrilha junina e que me chamava à atenção pela variedade de formações geométricas que ele permitia. O jogo se chama Tangram e por meio dele me inspirei em outras relações para a dança (Tangram- Máscara- Dança, Tangram- Fotografia- Dança), mas que foram arquivadas para outras pesquisas, assim como as citadas acima, pela abrangência do assunto.
Chegando certa manhã na biblioteca da Escola de teatro e dança da UFPA, deparei-me com o livro “Dança, Sexo e Gênero” da bailarina e antropóloga Judith L. Hanna que me suscitou outra temática relacionada à dança e a homossexualidade, tema este que cheguei a levantar inúmeras questões. Estava quase convicto, mas desviei de novo o caminho. Foi então, que retomei a idéia de partir somente da relação Dança/Tangram.
Tangram: “uma invenção chinesa”
O Tangram é um quebra-cabeça chinês de origem milenar, praticado há muitos séculos em todo o Oriente. Ele expandiu-se rapidamente para além do seu país de origem, tornando-se muito popular na Europa e nos Estados Unidos.
Seu nome original: Tch’i Tch’ iao Pan, significa “tábua das sete sabedorias” ou “tábua das sete sutilezas”.
Tem inspirado a criação de muitos outros jogos, a partir dele, com as mesmas características. Ao contrário de outros quebra-cabeças ele é formado por apenas sete peças com formas geométricas resultantes da decomposição de um quadrado. Vejamos:
- dois triângulos grandes;
- dois triângulos pequenos;
- um triângulo médio;
- um quadrado;
- um paralelogramo.
Com estas peças é possível criar e montar cerca de 1.700 figuras entre animais, plantas, pessoas, objetos, letras, números, figuras geométricas e outros.
Uma lenda sobre o Tangram
Um jovem chinês despedia-se de seu mestre, pois iniciaria uma grande viagem pelo mundo. Nessa ocasião, o mestre entregou-lhe um espelho de forma quadrada e disse:
- Com esse espelho você registrará tudo o que vir durante a viagem para mostrar-me na volta.
O discípulo surpreso, indagou:
- Mas mestre, como poderá eu lhe mostrar tudo o que encontrar durante a viagem, com um simples espelho?
No momento em que fazia esta pergunta, o espelho caiu-lhe das mãos, quebrando-se em sete peças.
Então o mestre disse:
Agora você poderá com essas sete peças, construir figuras para ilustrar o que viu durante a viagem.
Análise e composição coreográfica por meio do Tangram
“Muitas pesquisas em Educação [em dança] Matemática indicam que atividades lúdicas ligadas a diversos tipos de jogos têm papel importante no desenvolvimento de habilidades necessárias ao aprendizado de [da dança] Matemática e à resolução de problemas em geral. O jogo, por sua vez, tem mostrado que permite diminuir bloqueios em alunos que temem a Matemática [e a dança] e sentem-se incapazes de aprendê-la”. (kaleff. s/d- ênfases minhas)
Assim como o jogo do Tangram, a dança também propícia uma aprendizagem através do lúdico, permitindo a pessoa desenvolver segundo Débora Barreto (citada por Mirian L. Baiak, 2008) “o autoconhecimento; as vivências de corporeidade; relacionamentos estéticos com outras pessoas e com o mundo; incentiva expressividade artística e humana; libera a imaginação, a criatividade; sendo uma forma de comunicação e de conhecimento, ajudando na formação de cidadãos”.
Além de estimularem a aprendizagem de forma prazerosa, pude perceber que a relação Dança-Tangram poderia me levar muito além, pois verifiquei que tudo que nos rodeia é regido e construído pelo/no espaço- tanto interno como externo ao bailarino- e que pela variedade de formações geométricas advindas do Tangram poderia analisar e criar inúmeras coreografias trabalhando com esse elemento.
Proponho neste pré-projeto, mostrar como as formas geométricas planas do Tangram podem estar presentes nos laboratórios de composição coreográfica da Dança pós-moderna, estimulando o bailarino tanto internamente- criação do movimento- como externamente- configuração espacial. E a partir desses estudos , criar um espetáculo.
Utilizo-me para tais fins, os conceitos de espaço de Rudolf Laban, além de abordar conceitos de teóricos importantes como Klauss Vianna, Renato Cohen e de outros pesquisadores, que respaldaram e fundamentaram a pesquisa e a prática deste trabalho, que tem basicamente a função de estudar a relação do espaço da dança- coreografia- e o espaço para a criação da dança- corpo do bailarino por meio do Tangram.
Em síntese, finalizo este breve ensaio dizendo que o desfio de trabalhar a relação Dança/Tangram apenas está no início. Mas, apesar das poucas perguntas (internas a mim) que foram levantadas para o presente texto, fico feliz por conseguir despertá-las, porque sei que em um determinado momento irei responde- las.
Referências bibliográficas
Reflexões sobre Laban, o mestre do movimento/ Maria Mommensohn e Paulo Petrella, organizadores. São Paulo: Summus, 2006.
Negrão, Adilson M. Textos selecionados sobre o Tangram. Abaetetuba: pesquisa exploratória, 2010.
Fernandes, Ciane. O corpo em movimento: o sistema Laban/ Bartenieff na formação e pesquisa em artes cênicas. 2ª edição- São Paulo: Annablume, 2008.
Baiak, Miriam L. Dança: + do que simples movimento. Revista Dança Brasil, fev. 2008.
Hanna, Judith Lynne. Dança Sexo e Gênero: signos de identidade, dominação e desejo/ Judith Lynne Hanna; tradução de Mauro Gama. – Rio de Janeiro, Rocco, 1999.
Miller, Jussara. A escuta do corpo: a sistematização da técnica Klauss Vianna / Jussara Miller. – São Paulo: Summus, 2007.
Vianna, Klauss. A Dança / Klauss Vianna; em colaboração com Marco Antonio de carvalho. 5. Ed.- São Paulo: Summus, 2008.
Cohen, Renato. Work in progress na cena contemporânea: criação, encenação e recepção / Renato Cohen. – São Paulo: perspectiva, 2006. (estudos: 162)